A vida profissional de Téreza - que os leitores irão de
permitir que acentue o primeiro “e” para poder dar valor ao sotaque baiano -
tem por base levar espetáculos de teatro infantil, shows para crianças e
qualquer outra forma de cultura para escolas publicas e particulares de
Salvador. Téreza vive de Projeto Escola. Seu maior mérito é escolher
certeiramente projetos de qualidade para entreter as crianças por uma horinha
que seja e, com isto, abastar-se durante o ano todo com o resultado das vendas
da bilheteria. Um trabalho justo e honesto.
A Salvador, Téreza já levou Circo Internacional, exposição de
dinossauros, “O casamento de Dona Baratinha”, musicais de Rapunzel a Cinderela,
passando pelo fundo do mar com a Pequena Sereia até o Corcunda de Notre Dame.
Todos excelentes espetáculos de um famoso diretor Goiano. Porém nada se compara
ao espetáculo Branca de Neve e os Sete Anões, grande sucesso da carreira de
Téreza, onde os anões de verdade eram a festa da criançada.
Para situar quem nunca soube o que faz um produtor, este
cidadão é o responsável por receber os artistas, hospedá-los, alimentá-los,
zelar por sua segurança, convidar escolas, agendar ônibus, buscar as crianças,
receber o pagamento, dividir os lucros, divulgar na mídia, prestar contas,
levar ao aeroporto e, vez por outra, correr atrás de um integrante da equipe
técnica ou do elenco que se perdera de vista.
Téreza, nesta temporada de Branca de Neve, teve que apartar a
briga de dois anõeszinhos por causa da única fêmea da espécie. Era uma anã para
seis pequeninos. Mas justamente dois resolveram disputar a tapinhas o
coraçãozinho da pequena. Neste caso a palavra “pequena” não tem o significado
carinhoso dos anos 40 quando se chamava a garota de “aquela pequena”, mas sim
“ser feminino de baixa estatura”.
Geralmente as apresentações são quatro. Duas pela manhã, e
duas à tarde, com pouquíssimo tempo para almoço. Como a alimentação muitas
vezes é permuta - ou escambo, onde troca-se comida por lugares na plateia -
partiu Téreza e o elenco, formado por Branca de Neve, o Caçador, a Bruxa má e
os sete anões para o Shopping Iguatemí. Almoçaram quase todos felizes, pois
acredite, anões comem que nem gente grande, para infelicidade do dono do
estabelecimento, que pensara o contrário.
Como a pressa era grande, após o rango partiram em fileira
para a Van que os aguardava. Téreza na frente, atores atrás. Entravam todos na
Van quando deu-se a contagem: “Branca, Bruxa, Caçador, um, dois, três, quatro,
cinco, seis... Seis? Ah, não! Ta faltando um anãozinho! Perdi um anão!”. Téreza
saiu correndo do veículo e abordou o primeiro segurança que viu:
- Moço, o senhor viu um anão?
A cara de nada do segurança indicava que ele não havia
entendido a pergunta. Téreza engrossou o caldo:
- O senhor viu um anão?
- Minha Senhora, me desculpe, mas...
- Moço, pelamordedeus, eu passei aqui agora mesmo, com sete
anões, o senhor não viu?
Na cabeça do segurança, Téreza estava tendo um surto
psicótico, ou o ácido não tinha batido muito bem.
- Me responda! Estou desesperada, preciso achar um anão!
Fassavô de passar um radio para seus colegas e perguntar se algum deles viu um
anãozinho perdido no shopping!
Sem ter muito o que fazer, o segurança atendeu ao apelo
daquela louca:
- Atenção, atenção. Encontra-se perdido no shopping um
anãozinho. Quem encontrar, favor avisar imediatamente, obrigado.
- Diga que foi o Zangado! O Zangado!
- Atenção, o anãozinho é zangado!
- Ôxe, Zangado não é uma característica, é o nome, é o nome!!
Incrédulos, os demais seguranças demoraram 3 segundos para
compreender a mensagem. Téreza não se fez de lesa e saiu correndo pelo shopping
perguntando a todas as pessoas
- Por favor, você viu um anão? Alguém viu um anão?
Pelamordedeus me ajudem! Eu perdi um anãozinho!
Apavorada, já pensando em como substituir o personagem,
afinal a peça chama-se Branca de Neve e os Sete Anões, como ela poderia
apresentar seis anões? Crianças não são burras e sabem contar até dez. E também
não adianta colocar ninguém mais alto que o maior anão, pois aí o espetáculo
cairia no ridículo. E outra, já pensava até em como avisar à família do
anãozinho desaparecido que o parente se perdera no shopping.
Os seguranças vendo o desespero daquela mulher, iniciaram as
buscas, mesmo sabendo que poderia ser um delírio. Um deles achou melhor buscar o
médico de plantão, antes que além de anões, a mulher começasse a perguntar por Pluft
o Fantasminha, Nemo, Scooby Doo, Lassie
ou o Homem de Lata.
E do alto daquele alto falante, uma voz de baiana arretada
fez um apelo para que intensificassem as buscas pelo anãozinho:
- Aténção aténção. Encontra-se pérdido um anãozinho medindo
um metro e quarenta e sete, vestindo uma bota marrom, uma calça cor da pele,
luvas brancas, uma camiseta de mangas compridas verde e um gorro verde
combinando com a camisa. Por favor, alguém que encontrar o sujeito conduza-o
imediatamente ao ponto de encontro, localizado na saída quatro do piso térreo
do shopping. Obrigada.
As buscas se intensificaram. Fecharam todas as saídas.
Começaram a vasculhar cabines telefônicas, quiosques, guarda-roupas e
guarda-volumes, depósitos, elevadores, alçapões, ralos, bocas de lobo, valas,
qualquer local em que pudesse caber um anãozinho. Alguns mais animados chegaram
a pensar que fosse uma promoção relâmpago e, quem sabe, ao encontrar o tal
anãozinho, o vencedor ganharia um carro zero!
Desesperada, já prometendo até novecentos pulinhos para São
Longuinho, Téreza adentrou o banheiro masculino ao lado do restaurante onde
acabara de engolir uma comida e, sem dar bola para os mijões que escondiam seus
pintos como podiam, abaixou-se para verificar quais cabines estavam ocupadas. Para
sua alegria, viu que duas botinhas marrons pequenininhas encontravam-se
balançantes no ar, como se uma criança estivesse sentada no troninho com as
perninhas ao léu.
- Zangado?
- Sim!
- O que você está fazendo aí?
- A senhora quer mesmo saber?
- Pelamordedeus e você nem pra avisar que vinha ao banheiro?
Estou aqui desesperada! O shopping inteiro está
à sua procura! Você nunca mais faça isso, nunca mais saia de perto de
mim sem avisar! E ande logo que já estamos atrasados!
Como se deu a saída do anãozinho do banheiro, vou poupa-los
desta parte, mas não posso deixar de salientar a cara de felicidade com que
Téreza encarou os seguranças, com ar de “eu não sou louca”.
Desfilando de mãos dadas com o anãozinho pelas
alamedas do shopping, uma salva de palmas pode ser ouvida em comemoração ao
achado. Neste mesmo dia, os ingressos para as apresentações do fim de semana se
esgotaram e Téreza teve a maior arrecadação de bilheteria da história do teatro
infantil de Salvador.
