quarta-feira, 30 de maio de 2012

TÉRÊZA

Era uma vez, no reino distante da Bahia, no condado de Salvador, uma linda produtora cultural conhecida por Téreza. Jorge Amado, que este ano completaria 100 anos de vida, eternizou seu nome em “Tereza Batista, Cansada de Guerra”. Mal sabia ele que a vida do produtor cultural é sim uma eterna guerra.

A vida profissional de Téreza - que os leitores irão de permitir que acentue o primeiro “e” para poder dar valor ao sotaque baiano - tem por base levar espetáculos de teatro infantil, shows para crianças e qualquer outra forma de cultura para escolas publicas e particulares de Salvador. Téreza vive de Projeto Escola. Seu maior mérito é escolher certeiramente projetos de qualidade para entreter as crianças por uma horinha que seja e, com isto, abastar-se durante o ano todo com o resultado das vendas da bilheteria. Um trabalho justo e honesto.

A Salvador, Téreza já levou Circo Internacional, exposição de dinossauros, “O casamento de Dona Baratinha”, musicais de Rapunzel a Cinderela, passando pelo fundo do mar com a Pequena Sereia até o Corcunda de Notre Dame. Todos excelentes espetáculos de um famoso diretor Goiano. Porém nada se compara ao espetáculo Branca de Neve e os Sete Anões, grande sucesso da carreira de Téreza, onde os anões de verdade eram a festa da criançada.

Para situar quem nunca soube o que faz um produtor, este cidadão é o responsável por receber os artistas, hospedá-los, alimentá-los, zelar por sua segurança, convidar escolas, agendar ônibus, buscar as crianças, receber o pagamento, dividir os lucros, divulgar na mídia, prestar contas, levar ao aeroporto e, vez por outra, correr atrás de um integrante da equipe técnica ou do elenco que se perdera de vista.

Téreza, nesta temporada de Branca de Neve, teve que apartar a briga de dois anõeszinhos por causa da única fêmea da espécie. Era uma anã para seis pequeninos. Mas justamente dois resolveram disputar a tapinhas o coraçãozinho da pequena. Neste caso a palavra “pequena” não tem o significado carinhoso dos anos 40 quando se chamava a garota de “aquela pequena”, mas sim “ser feminino de baixa estatura”.

Geralmente as apresentações são quatro. Duas pela manhã, e duas à tarde, com pouquíssimo tempo para almoço. Como a alimentação muitas vezes é permuta - ou escambo, onde troca-se comida por lugares na plateia - partiu Téreza e o elenco, formado por Branca de Neve, o Caçador, a Bruxa má e os sete anões para o Shopping Iguatemí. Almoçaram quase todos felizes, pois acredite, anões comem que nem gente grande, para infelicidade do dono do estabelecimento, que pensara o contrário.

Como a pressa era grande, após o rango partiram em fileira para a Van que os aguardava. Téreza na frente, atores atrás. Entravam todos na Van quando deu-se a contagem: “Branca, Bruxa, Caçador, um, dois, três, quatro, cinco, seis... Seis? Ah, não! Ta faltando um anãozinho! Perdi um anão!”. Téreza saiu correndo do veículo e abordou o primeiro segurança que viu:

- Moço, o senhor viu um anão?

A cara de nada do segurança indicava que ele não havia entendido a pergunta. Téreza engrossou o caldo:

- O senhor viu um anão?

- Minha Senhora, me desculpe, mas...

- Moço, pelamordedeus, eu passei aqui agora mesmo, com sete anões, o senhor não viu?

Na cabeça do segurança, Téreza estava tendo um surto psicótico, ou o ácido não tinha batido muito bem.

- Me responda! Estou desesperada, preciso achar um anão! Fassavô de passar um radio para seus colegas e perguntar se algum deles viu um anãozinho perdido no shopping!

Sem ter muito o que fazer, o segurança atendeu ao apelo daquela louca:

- Atenção, atenção. Encontra-se perdido no shopping um anãozinho. Quem encontrar, favor avisar imediatamente, obrigado.

- Diga que foi o Zangado! O Zangado!

- Atenção, o anãozinho é zangado!

- Ôxe, Zangado não é uma característica, é o nome, é o nome!!

Incrédulos, os demais seguranças demoraram 3 segundos para compreender a mensagem. Téreza não se fez de lesa e saiu correndo pelo shopping perguntando a todas as pessoas

- Por favor, você viu um anão? Alguém viu um anão? Pelamordedeus me ajudem! Eu perdi um anãozinho!

Apavorada, já pensando em como substituir o personagem, afinal a peça chama-se Branca de Neve e os Sete Anões, como ela poderia apresentar seis anões? Crianças não são burras e sabem contar até dez. E também não adianta colocar ninguém mais alto que o maior anão, pois aí o espetáculo cairia no ridículo. E outra, já pensava até em como avisar à família do anãozinho desaparecido que o parente se perdera no shopping.

Os seguranças vendo o desespero daquela mulher, iniciaram as buscas, mesmo sabendo que poderia ser um delírio. Um deles achou melhor buscar o médico de plantão, antes que além de anões, a mulher começasse a perguntar por Pluft o Fantasminha,  Nemo, Scooby Doo, Lassie ou o Homem de Lata.

E do alto daquele alto falante, uma voz de baiana arretada fez um apelo para que intensificassem as buscas pelo anãozinho:

- Aténção aténção. Encontra-se pérdido um anãozinho medindo um metro e quarenta e sete, vestindo uma bota marrom, uma calça cor da pele, luvas brancas, uma camiseta de mangas compridas verde e um gorro verde combinando com a camisa. Por favor, alguém que encontrar o sujeito conduza-o imediatamente ao ponto de encontro, localizado na saída quatro do piso térreo do shopping. Obrigada.

As buscas se intensificaram. Fecharam todas as saídas. Começaram a vasculhar cabines telefônicas, quiosques, guarda-roupas e guarda-volumes, depósitos, elevadores, alçapões, ralos, bocas de lobo, valas, qualquer local em que pudesse caber um anãozinho. Alguns mais animados chegaram a pensar que fosse uma promoção relâmpago e, quem sabe, ao encontrar o tal anãozinho, o vencedor ganharia um carro zero!

Desesperada, já prometendo até novecentos pulinhos para São Longuinho, Téreza adentrou o banheiro masculino ao lado do restaurante onde acabara de engolir uma comida e, sem dar bola para os mijões que escondiam seus pintos como podiam, abaixou-se para verificar quais cabines estavam ocupadas. Para sua alegria, viu que duas botinhas marrons pequenininhas encontravam-se balançantes no ar, como se uma criança estivesse sentada no troninho com as perninhas ao léu.

- Zangado?

- Sim!

- O que você está fazendo aí?

- A senhora quer mesmo saber?

- Pelamordedeus e você nem pra avisar que vinha ao banheiro? Estou aqui desesperada! O shopping inteiro está  à sua procura! Você nunca mais faça isso, nunca mais saia de perto de mim sem avisar! E ande logo que já estamos atrasados!

Como se deu a saída do anãozinho do banheiro, vou poupa-los desta parte, mas não posso deixar de salientar a cara de felicidade com que Téreza encarou os seguranças, com ar de “eu não sou louca”.



Desfilando de mãos dadas com o anãozinho pelas alamedas do shopping, uma salva de palmas pode ser ouvida em comemoração ao achado. Neste mesmo dia, os ingressos para as apresentações do fim de semana se esgotaram e Téreza teve a maior arrecadação de bilheteria da história do teatro infantil de Salvador.